EPITÁFIO PARA UM AMIGO IMAGINÁRIO

Como forjar o arrepiou da pele frente às gotas de chuva?
Como forjar coragem frente às barbas do medo?
Como esquecer da falta de ar ao engatilhar o cobiçado beijo?
Como esquecer o cheiro do sexo impregnado mesmo após o banho?

Há tantas coisas que podem incitar a vertigem;
Até mesmo para um amigo imaginário, uma sombra.
Há tantas coisas que podem ludibriar a lucidez;
Até mesmo para um cônego, um estandarte;

Não um daqueles confeccionados em manufatura
Urdida pelo tear da aliciação, aquele de inerme mote.
E sim aquele trançado a partir do fidalgo linho
Que por persistência da vocação é emplumado.

Como poupar-se das gafes ao encontro do auto-conhecimento?
Como poupar-se da frustração á espreitar o encalço da fortuna?
Como confiar na fresta entreaberta entre a cela e a fuga?
Como confiar na areia que assovia pelos vértices da ampulheta?

Há tantos segredos incrustados entre o riacho e a relva;
Até mesmo para a enxurrada que á ambos farta.
Há tantos ressentimentos á fecundar desventuras;
Até mesmo para um infausto que julgou todas desbravar.

Um soldado iconoclasta, centelha da submissão;
Entrincheirado nos poços de enxofre,
Vomitados de lucíferas bocarras,
Arrebatadas da humana ostentação.

Por fim,como deixar o para trás o aconchego do lugar comum?
Por fim,como deixar diminuído o inelutável?
Como ser o algoz da própria assunção?
Como ser agente e não apenas recordação?

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Escrito por Fábio R.Vieira,

em homenagem a vida e a obra

do poeta português Fernando Pessoa

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FOTOCÓPIAS

Por Fabio R

Outro assinou pelos livros,
Que de meus monólogos haveriam de saltar!
No chão já não provém mais abrigo,
Árvores que mi’as mãos deveriam cultivar
!

E pelo que não criamos,
E pelo que não zelamos,

Somos relés fotocópias!
Duma imperfeição imperativa,

A esmaecer no calço das repartições….

Na indisposição funcional do atendente
Um desapreço pela graça do sustento!
Em sua pele o cancro sobressalente
No abandono,toma posse do sujeito!

E pelo que não agradecemos,
E pelo que não remediamos,

Somos moldes em barro!
Trincados em vestes grosseiras,
Exclusos de qualquer admiração….

Por parte do ceramista,
Por parte da clientela,

Em parte pelo que não notamos,
Em conjunto pelo que não queremos!

Em todo pelo que não fazemos,
Em tudo pelo que não desculpamos!
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Dedicado ao “Erva Daninha” Álvaro de Campos(Fernando Pessoa)