Mãos Negras(por Piá Montenegro)

Rio
Desce tuas doces águas turvas ladeira abaixo
Que de tanto perder, virou ácido
Lava essa alma que se fez plúmbea
Pela omissão
Pelo medo
Deixa o branco da paz se aconchegar
Serenamente
No colo daqueles que te pariram
Em quartos de janelas panorâmicas
Ouro e latões coexistindo
Separados pela maior das muralhas
A da indiferença humana
A da exclusão social
Perversa
Palpável
fecunda
Tudo visto dessa janela
Rio….sorrio…só Rio!

Permita
O negro da pele luzir pelo suor digno
Do trabalho
O róseo das faces de tuas crianças
Que desenha sonhos em papel de embrulho
De cocas e craks
Que pirilampa em céus de balas perdidas
E vezes, achadas por corações inocentes
Abatidas!
Aviõezinhos de carne e osso
Reféns da usura
Do medo
Da covardia
Que possam suas mãozinhas inocentes
Colherem um futuro de amores-perfeitos
Permita que desse céu, o anil
Não seja esquecido
Nas sombras do metálico fuzil
Ah, Rio, tu és o coração pulsante
Desse meu Brasil!
E por fim
Permita que
O oliva dessa bandeira
De um país de desordem e progresso
Tremule a esperanças
Que está, e sempre estará
Nas tuas crianças!

Piá Montenegro

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Ó!

(redondilha menor da gente)

no tempo passado
a gente brincava,
chorava de dar
dó.

no tempo presente,
andando de lá
e no sempre cá:
só.

no tempo futuro,
a gente sonhava,
sem nem que pensasse:
nó.

no tempo eterno,
nós somos palermas,
no final, virar
pó.

O sistema

Levanta-te preguiça, está na hora de ir para firma…

Firmar contratos contrastantes com a minha realidade cheia de insanidades,

Está na hora H, de Homem sem Honestidade, mas cheio de Habilidades

Devo ao mundo o meu tempo, só para ganhar dinheiro,

Que devo o tempo inteiro!

 

Trabalho, falho, não paro, reparo…

Sistematicamente, sou matematicamente uma máquina

Ora sem hora

 

Sobrevivo sobre vivos que não pensam

Tenho caixa craniana privilegiada,

E caixa registradora pressurizada – para não deixar de ser privilegiada!

 

Inventaram o sistema a troco de igualdade,

Mas dividiram com a hierarquia, tanta responsabilidade…

Sistema é propulsão e não proporção,

Porque tem mais quem força menos mais se enforca mais

 

Se esforcem aqueles sem conhecimento do sistêmico,

Sou acadêmico!

 

Levanta-te braçal, está na hora de entrar na linha

Da produção, do trem, do metrô e do ônibus…

Simplesmente, cair na conversa e rotina

Da ladainha trabalhista…

 

 

Prólogo:

Quando se fala em sistema, imagina-se um bando de descamisados a espera do metrô, gente que trabalha com tempo descontado e não contado, enquanto neste próprio sistema, também se encaixa o empresário, o Ser cheio de poder e não poderes. E é isso – O sistema – Uma indagação íntima de um ser não assalariado, mas que sabe da sua falta de mais poderes para fazer do sistema uma constituição própria e não igualitária.

 

 

Poesia para tempos de guerra

Estórias para contar antes de dormir

Mãe, lá vem ela com suas surpresas
Lá vem ela com suas ciladas
Vem com suas espadas e medalhas
Mãe, lá vem ela com suas fumaças
Vem com o vapor imundo.
Vê mãe, ela nos abraça

Pai, lá vem ela com sua arrogância
Vem no ritmo da morte
Lá vem ela com sua dança
Pai, lá vem ela matando as crianças
Lá vem com seus demônios que devoram esperança

Mãe, lá vem o monstro mecânico,
com sua boca barulhenta
Ela vem com suas chamas
Lá vem ela com suas balas e as gentes pulverizadas
Pai, lá vem os filhos do engano
Eu vejo o mundo em despadaço
Mãe, vê as lágrimas de outras mães,
que veêm outros pais em pedaços

Mãe, lá vem por trás dela, outros homens
Que são homens como outros homens quê fogem dela
Pai, lá vem ela nivelando com a medida justa
Com os horrores da disputa
Lá vem a sangrenta luta

Mãe, para ela todos são iguais,
todos são mortais
Lá vem a ideologia que diante da vida, nada significa
Pai, e sê não tiver homens para impedí-la ?
Essa doença, a parasita, que corroe sua própria carne ?

Mãe, vamos fugir para outro mundo,
vamos navegar até as Plêiades
Mãe, vamos voar para as estrelas,
Vamos cessar de ser gente
Vamos Pai, vamos dar um passo a frente
Deixa a guerra pra depois,
vamos sair do continente

E mesmo depois que ela passa
Fica a marca das pegadas
Fica os pais nas sarjetas
Fica o sangue esparramado
Misturado com a pólvora, o sangue de outras gentes
Ficam mães chorando por seus filhos e parentes

Mãe, Pai, agora já não dá mais tempo de fugir
Sobre os inocentes, ela já está por vir
Fecha os olhos pai
Fecha os olhos mãe
Cobre o meu corpo com a coberta, por quê as bombas frias vão cair.
Dá-me um beijo e vamos dormir.

A vida em quadrinhos

A Lenda do Sub-Homen

As Super-promessas
Dos Super-discursos
São um Super-engano
Para os Super-ingênuos

Foram Super-idiotas
Na Super-votação
Fazendo Super-demagogo
Um Super-Campeão

Agora que o Super-político
Tem seu Super-escritório
A sua Super-memória
Deu-se um Super-apagão

Enquanto na Super-votação
Do Super-congresso
Seus Super-salários
Recebem Super-aumento

As Super-corrupções
Dos Super-dirigentes
São Super-abafados
Em Super-reuniões

E mesmo que os Super-ingênuos
Façam Super-manifestação
Contra os Super-aumentos
Contra os Super-campeões

A Super-polícia
Com seus Super-camburões
Desperçam com Super-violência
As Super-manifestações

E a estória se repete
Com detalhes e confetes
Político são os mesmos
Hoje, ontem e sempre?

Os Super-corruptos
Com suas Super-mansões
Com seus Super-feriados
Com seus Super-carrões

Deixam a população a merce
Sem respostas e sem saída
Sem saúde e sem ajuda
Sem coragem pra vencer

Vencer a vida sofrida
Vencer a ignorancia maldita
Vencer as drogas e armas
Vencer nas votações

Até na Liga da justiça
Nem Advogados e Doutores
Nem Juizes e Julgamentos
Nem mesmo Legisladores

Quebram a Super-corrente
Da sociedade Super-doente
Super-complacente
Do sub-mundo, de super-vilões

Somente os sub-humanos
Enfrentam Super-fome
Nos subterrâneos
Da Super-nação

Conspiração Engenhosa

Atingiram o coração de um guerreiro

Um vingativo que se esconde do mundo

Com a máscara mais terrível do submundo

A interminável insensatez dum engenheiro

 

Constrói um bloqueio de tamanho derradeiro

Mas na verdade cavam um tumulo profundo

Engenheiro demolidor do sonho moribundo

Já não posso agüentar, entrego-me por inteiro.

 

Há homens que não se entregam por orgulho

Igualam-se a grande massa em um mergulho

Quando vêem que esse caminho é fútil

 

Arranha céus… Arranhando minha natureza

Arquiteto da conspiração visivelmente inútil

Tire a máscara e mostre sua enganosa beleza.

Ali Omar Ayoub 2008

Trajado de Tragédias

 

Vestido ou Pelado

Quando a miséria quer seus bens

Não tem pena do mal trajado

Ou das tragédias que lhe convém

 

Vamos a rigor

Para festa que personalidade e caráter não entra

 

Pode usar a camisa da preguiça

Vestir aquele paletó – de dó

Não esqueça na cabeça

Do chapéu cruel

E nas mãos, a mala sem alça…

 

Desafortunado é aquele vestido de vestígios:

Dos males da sociedade.

Coitado é aquele pelado, sem traje da verdade.

 

Os verdadeiros pedintes

Estão entre nós, a espreita da inveja

 

Mendigo não se traje

Ultraje…

 

 

Dedicatória:

Aos mendigos de Rua  – Os verdadeiros trajados de tragédias

Aos mendigos do nosso Contexto – Miseráveis que usam o terno do ultraje…