Delicadeza

destilam-se pensamentos
das nuvens de palavras
sensualmente deitam-se nos versos
sobre uma folha branca

então contam-se as sílaba, vocábulos
como se os versos tivessem ossinhos
ossinhos de porcelana, de passarinho

segure o poema de mansinho
para não machucar
que por entre dedos
escorreram os sentimentos

Num só movimento
reflete nos olhos, metáforas
enquanto a boca enche-se d’agua
e a língua banha-se na alegoria
poesia é alimento,
que sem morder,
engula sem pensar

Bluebird animation based on Charle’s Bukowski’s poem

Charles Bukowski – Bluebird

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pur whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.
then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?

Charles Bukowski

The Tragedy of the Leaves

By Charles Bukowski

I awakened to dryness and the ferns were dead,
the potted plants yellow as corn;
my woman was gone
and the empty bottles like bled corpses
surrounded me with their uselessness;
the sun was still good, though,
and my landlady’s note cracked in fine and
undemanding yellowness; what was needed now
was a good comedian, ancient style, a jester
with jokes upon absurd pain; pain is absurd
because it exists, nothing more;
I shaved carefully with an old razor
the man who had once been young and
said to have genius; but
that’s the tragedy of the leaves,
the dead ferns, the dead plants;
and I walked into a dark hall
where the landlady stood
execrating and final,
sending me to hell,
waving her fat, sweaty arms
and screaming
screaming for rent
because the world had failed us
both.

Líquida

Fluidez corre pelas concordâncias
Condensa-se o verbo à sentenças
E a solidez das oxítonas entoam
No cantado silábico das tramas

E da líquida idéia que pinga
Que desce para uma câmara esguia
Fermenta na saliva o gosto da mente
A nata da língua latina da gente

Diga-me

Diga-me se te sou pouco
Diga-me se não miolo teu oco
Se me queres obsceno
Como aqueles outros

Faz-me líquido e sólido
Conjugando-me em tuas ancas
Se não te sorvo subvertido fruto
Que tanto geograficamente estudo

Cala-me o ai da boca com o bico
Enquanto não obtuso
Esfrega-me à flor da tua pele veludo
Que esbraseado extirpo teu perfume noturno

Ostracismo

Gente me incomoda
Sou uma ostra dentro da ostra
Preciso de poucos amigos
Um que me empreste
Um que me ensine
Um que me aplauda (mesmo sem entender)
Não sou diferente da lesma
Que vai deixando seu corpo liso
Num rastro prateado
Fugindo do calor do sol
Pra agonizar num punhado de sal
No teto uma aranha
Tecendo uma armadilha
Sendo que a vida já fez isso por nos.

Pagão

Ainda brotam-me na pele
Brutos diamantes translúcidos
E na minha boca o gosto
De todas as manhãs de domingo
Ainda repousa em meu corpo
Brumas de um perfume antigo
Dos feitiços das terras do fogo
Nossas noites de oferenda
Corpos celestes movimentando-se
Lentos enfileirados sobre nossas cabeças
Nas dunas de uma areia santa
Brincam o vento e a brisa quem vem de ti
Eu como um mar tempestuoso
Quebrando-me sobre falésias de nostalgia
Rochas monumentais que ainda adoro
Sou pagão numa religião perdida