Líquida

Fluidez corre pelas concordâncias
Condensa-se o verbo à sentenças
E a solidez das oxítonas entoam
No cantado silábico das tramas

E da líquida idéia que pinga
Que desce para uma câmara esguia
Fermenta na saliva o gosto da mente
A nata da língua latina da gente

Diga-me

Diga-me se te sou pouco
Diga-me se não miolo teu oco
Se me queres obsceno
Como aqueles outros

Faz-me líquido e sólido
Conjugando-me em tuas ancas
Se não te sorvo subvertido fruto
Que tanto geograficamente estudo

Cala-me o ai da boca com o bico
Enquanto não obtuso
Esfrega-me à flor da tua pele veludo
Que esbraseado extirpo teu perfume noturno

Ostracismo

Gente me incomoda
Sou uma ostra dentro da ostra
Preciso de poucos amigos
Um que me empreste
Um que me ensine
Um que me aplauda (mesmo sem entender)
Não sou diferente da lesma
Que vai deixando seu corpo liso
Num rastro prateado
Fugindo do calor do sol
Pra agonizar num punhado de sal
No teto uma aranha
Tecendo uma armadilha
Sendo que a vida já fez isso por nos.