Poesia & Companhia

Mestres da Poesia

Deixe uma poesia de um poeta ou poetisa que traz inspiração.

15 Respostas para "Mestres da Poesia"

Pablo Neruda

Ode à Crítica

Eu escrevi cinco versos: um verde,
um outro era um pão redondo,
o terceiro uma casa levantando-se,
o quarto era um anél,
o quinto verso era
curto como um relámpago
e ao escrevê-lo
me deixou na razão sua queimadura

E bem, os homens, as mulheres
vieram e tomaram
a sensível matéria,
brisa, vento, fulgor, barro, madeira
e com tão pouca coisa
construiram
paredes, pisos, sonhos,
Em uma linha de minha poesia
secaram roupa ao vento.
Comeram minhas palavras
as guardaram
junto da cabeceira,
viveram com um verso,
com a luz que saiu do meu lado.
Então, chegou um crítico mudo
e outro cheio de linguas,
e outros, outros chegaram
cegos e cheio de olhos,
elegantes alguns
como cravos com sapatos vermelhos,
outros estritamente
vestidos de cadáveres,
alguns partidários
do rei e sua elevada monarquia,
outros tinham-se
enredado à frente
de Marx e sapateavam em sua barba,
outros eram ingleses,
e entre todos se lançaram
com dentes e facas,
com dicionários e
outras armas negras
com menções respeitáveis,
se lançaram
a discutir a minha pobre poesia
às gentes simples
que lha amavam:
e a fizeram um funíl,
a enrolaram,
a sujeitaram com cem alfinetes,
a cobriram com pó de esqueletos,
a mancharam de tinta,
a cuspiram com a suave
bondade de gatos,
determinaram-na a ser papel de embrulho,
a protejeram e a condenaram,
a derramaram petróleo,
a dedicaram húmidos tratados,
a cozinharam com leite,
Juntaram-la pequenas pedrinhas,
foram apagando as vocais,
foram matando-a
sílabas e suspiros,
Arrugaram-na e fizeram
um pequeno pacote
que destinaram cuidadosamente
as seus porões, a seus cemitérios,
logo se retiraram um à um
enfurecidos até a loucura
Porque não fui bastante
popular para eles
ou impregnados de
doce menosprezo
por minha ordinária falta de trevas,
se retiraram todos e então,
outra vez, junto à minha poesia
voltaram a viver
mulheres e homens,
e acenderam fogo,
construiram casas,
comeram pão,
e repartiram a luz
e no amor uniram relâmpago e anél.
E agora, perdoem-me, senhores,
que interrompe este conto
que estou-lhes contando
e me vou viver
para sempre
com a gente simples.

(Traduzido por Ivan Santos)

Edgar Allan Poe

Alone

From childhood’s hour I have not been
As others were; I have not seen
As others saw; I could not bring
My passions from a common spring.
From the same source I have not taken
My sorrow; I could not awaken
My heart to joy at the same tone;
And all I loved, I loved alone.
Then- in my childhood, in the dawn
Of a most stormy life- was drawn
From every depth of good and ill
The mystery which binds me still:
From the torrent, or the fountain,
From the red cliff of the mountain,
From the sun that round me rolled
In its autumn tint of gold,
From the lightning in the sky
As it passed me flying by,
From the thunder and the storm,
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)
Of a demon in my view.

Augusto dos Anjos

A Idéia

De onde ela vem?! De que matéria bruta
Vem essa luz que sobre as nebulosas
Cai de incógnitas criptas misteriosas
Como as estalactites duma gruta?!
Vem da psicogenética e alta luta
Do feixe de moléculas nervosas,
Que, em desintegrações maravilhosas,
Delibera, e depois, quer e executa!

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica …

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica.

Cecília Meireles

Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência

Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras:

olhos colados aos vidros,

mulheres e homens à espreita,

caras disformes de insônia,

vigiando as ações alheias.

Pelas gretas das janelas,

pelas frestas das esteiras,

agudas setas atiram

a inveja e a maledicência.

Palavras conjeturadas

oscilam no ar de surpresas,

como peludas aranhas

na gosma das teias densas,

rápidas e envenenadas,

engenhosas, sorrateiras.

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

brilham fardas e casacas,

junto com batinas pretas.

E há finas mãos pensativas,

entre galões, sedas, rendas,

e há grossas mãos vigorosas,

de unhas fortes, duras veias,

e há mãos de púlpito e altares,

de Evangelhos, cruzes, bênçãos.

Uns são reinóis, uns, mazombos;

e pensam de mil maneiras;

mas citam Vergílio e Horácio,

e refletem, e argumentam,

falam de minas e impostos,

de lavras e de fazendas,

de ministros e rainhas

e das colônias inglesas.

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

uns sugerem, uns recusam,

uns ouvem, uns aconselham.

Se a derrama for lançada,

há levante, com certeza.

Corre-se por essas ruas?

Corta-se alguma cabeça?

Do cimo de alguma escada,

profere-se alguma arenga?

Que bandeira se desdobra?

Com que figura ou legenda?

Coisas da Maçonaria,

do Paganismo ou da Igreja?

A Santíssima Trindade?

Um gênio a quebrar algemas?

Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

entre sigilo e espionagem,

acontece a Inconfidência.

E diz o Vigário ao Poeta:

“Escreva-me aquela letra

do versinho de Vergílio…”

E dá-lhe o papel e a pena.

E diz o Poeta ao Vigário,

com dramática prudência:

“Tenha meus dedos cortados

antes que tal verso escrevam…”

LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,

ouve-se em redor da mesa.

E a bandeira já está viva,

e sobe, na noite imensa.

E os seus tristes inventores

já são réus — pois se atreveram

a falar em Liberdade

(que ninguém sabe o que seja).

Através de grossas portas,

sentem-se luzes acesas,

— e há indagações minuciosas

dentro das casas fronteiras.

“Que estão fazendo, tão tarde?

Que escrevem, conversam, pensam?

Mostram livros proibidos?

Lêem notícias nas Gazetas?

Terão recebido cartas

de potências estrangeiras?”

(Antiguidades de Nimes

em Vila Rica suspensas!

Cavalo de La Fayette

saltando vastas fronteiras!

Ó vitórias, festas, flores

das lutas da Independência!

Liberdade – essa palavra,

que o sonho humano alimenta:

que não há ninguém que explique,

e ninguém que não entenda!)

E a vizinhança não dorme:

murmura, imagina, inventa.

Não fica bandeira escrita,

mas fica escrita a sentença.

Ferreira Gullar em De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

FERREIRA GULLAR
——————–

SUBVERSIVA

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe.
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
Infringe o Código de Águas
Relincha

Como puta
Nova
Em frente ao Palácio da Alvorada.

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de justiça.

E promete incendiar o país.

CLEIDE CANTON

SINTO VERGONHA DE MIM

Sinto vergonha de mim
por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

Ruy Barbosa

Trecho de um discurso

“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem- se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto” .

Francisco Alvim

Luta Literária

Eu é que presto

BAUDELARIE-

PERDA DE AURÉOLA

“O quê!? Você aqui, meu caro? Você, num lugar desses! Você, o bebedor de quintessências!, O comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender.”

“Meu caro, bem conheces o pavor que tenho dos cavalos e dos coches. Agora há pouco, quando atravessava apressado o bulevar, saltando sobre a lama, através desse caos movente em que a morte chega a galope, por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou de minha cabeça para o lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que quebrar os ossos. E depois pensei cá comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você, como pode ver!”

“Deveria ao menos dar parte do desaparecimento dessa auréola, comunicar o ocorrido ao comissário.”

“Ah, não. Me sinto bem. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me aborrece. Depois, penso com alegria que algum poeta medíocre vai achá-la e com ela, impudentemente, se cobrir. Fazer alguém feliz, que prazer! E principalmente um felizardo que me faça rir! Pense em X ou Z! Hein? Como vai ser engraçado!”

(Tradução Leda Tenório da Mota)

Em homenagem ao aniversário de 40 anos do AI5(dezembro de 1968) dedico aos amigos da comunidade(pra quem ainda não conhece) o poema abaixo:

No Caminho, com Maiakóvski

Eduardo Alves da Costa

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de me quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

O CAPUZ
Pedro Tierra

Cá está o capuz sobre a grade.
Traz consigo uma segura
promessa de dor. Na boca
do sentinela um meio riso.
Cá está uma parcela da noite
cobrindo meu rosto.
A mão de meu inimigo
determina o caminho.
Pelos corredores aprendi
o jeito inseguro dos cegos.
As mãos tateando a parede.
Sob os pés a escada imprevista,
o degrau a mais, a queda,
o riso dos soldados,
o gesto perdido buscando
uma porta que não houve.
O passar dos dias
e as cicatrizes no corpo
ensinaram-me esse caminho.
Nos dedos guardei as arestas,
o ferro das portas,
o fio dos dínamos.
No dorso a marca
desses dias de sombra.
O capuz repete a dor
no corpo de cada combatente,
uma dor mercenária
recrutada a serviço da noite.

POEMAS DE MOHAMOUD DARWISH,ESCRITOR PALESTISNO
——————————————

Sob Cerco

Aqui sobre o contorno das colinas, frente o crepúsculo e o canhão do tempo
Perto dos jardins das sombras despedaçadas
Nos fazemos o que os prisioneiros fazem
E o que o desempregado faz: nós cultivamos a esperança
***
Um país se preparando para o despertar. Nós crescemos menos inteligentes
Para de mais perto vigiar o momento da vitória
Não há noite em nossa vigília conta o bombardeamento
Nossos inimigos estão observando e a luz, está luz é para nós
Na escuridão dos porões
***
Não existe “EU”
Aqui Adam lembra a poeira de sua argila
***
À beira da morte, ele diz:
Não tenho nada a perder, a deixar:
Livre eu sou tão perto de minha liberdade. Minhas mentiras futuras carrego nas mãos
Breve eu devo penetrar pela vida
Eu devo nascer livre e descompromissado
E como meu nome eu devo grifar em letras nobres
***
Vocês quem esperam na porta,entrem
Bebam um café árabe conosco
E vocês perceberão que são homens como nós
Vocês que esperam na entrada das casas
Venham para nossas manhas
Nós devemos sentir
Homens como vocês!
***
Quando os aviões desaparecerem, o branco, pombas brancas.
Se perderão e banharão as bocejas do céu
Com imensas asas trazer de volta o esplendor, tomando posse.
Do éter e do jogo. No alto, mais alto, o branco, as pombas brancas.
Se perder. Ah, somente o céu.
Onde é real[um homem passando entre duas bombas me disse]
***
Ciprestes atrás dos soldados, baionetas protegendo.
O céu do colapso. Por detrás da cerca de aço
Soldados mijam-sobre o tanque de guerra vigilante-
E o automaticamente o dia termina sua viajem dourada
Uma rua vazia como a igreja depois da multidão do domingo
***
[para um assassino]se ele tivesse encarado a face da vitima
E pensado no que pensou, ele poderia ter se lembrado de sua mãe dentro.
Da câmara de gás, ele poderia ter justificado seu rifle.
E vocês poderiam mudar de idéia: esse não é o caminho
Para encontrar a união novamente
***
O cerco está interrompido
Esperando no degrau da escada em meio à tempestade
***
Sozinhos, nós estamos sozinhos tão afundados nos sedimentos.
Onde não somos contemplados pelo arco-íris
***
Nós temos irmãos por de trás dessa imensidão
Excelentes irmãos. Eles nos amam. Eles nos observam e chicoteiam
Então, em segredo, eles conversam:
“Ah! Se este cerco não fosse declarado… “Eles não cumpririam a sentence deles”.
“ Não nos abandone, não nos deixe”.
***
Nossas perdas: entre dois ou oito mártires a cada dia
E dez feridos
E vinte casas
E cinqüenta oliveiras
Afundados na falha estrutural
Que chega ao poema, no jogo, e nas improvisadas lonas.
***
Uma mulher contou a nuvem: carregada meu amor
Por minhas vestes cobertas com seu sangue
***
Se você não está na chuva, meu amor.
Seja uma arvore
Permaneça fértil, seja uma arvore.
Se você não é arvore, meu amor.
Seja pedra
Saturada com a umidade, seja pedra.
Se você não é pedra, meu amor.
Seja lua
Nos sonhos de uma mulher amada, seja lua.
[então conte sobre a mulher para seu filho no funeral dela]
***
Oh sentinelas!Não estão cansados?
De mentir enquanto esperam pela luz de nosso sal
E pela incandescência da rosa em nossas feridas
Não estão cansados, oh sentinelas?
***
Uma dose desse absoluto e infinito azul
Poderia ser suficiente
Para aliviar o peso desses dias
E para remover o lodo desse lugar
***
E o momento para a alma descer destes montes
E caminhar sob os sedosos pés
Lado a lado, de mãos dadas, como dois velhos.
Amigos quem compartilham do pão ancestral
E do ancestral copo de vinho
Podemos caminhar nesta estrada juntos
E quando nossas jornadas tomarem direções opostas:
Eu, além da natureza, em transformação.
Irei escolher repousar sobre o topo da rocha
***
Em meus restos a sombra cresce verde,
E o lobo está em pele de cordeiro
Ele sonha como eu, como o anjo faz a vida aqui… não termina ali
***
No estado de cerco, o tempo se torna espaço.
Transfigurado em eternidade
No estado de cerco, o tempo se torna espaço.
Ele perde o ontem e o amanhã
***
O mártir me rodeia cada vez que surje um novo dia
E me questiona: Por onde esteve?Pegue cada palavra
E me traga de volta aos dicionários
E desperte os preguiçosos a partir do meu brado
***
O mártir me iluminou: além da imensidão
Não olhei para
As virgens da imortalidade, para os amores da vida.
Sobre a terra, entre as figueiras e pinhos,
Mas não pude alcançá-lo, e então, eu o deslumbrei.
Com minha ultima força: o sangue no corpo nobre
***
O mártir me avisou: não acredite em seus uivos
Acredite meu pai quando, chicoteiam, eles almejam minha fotografia.
Como nos comprometemos, meu filho, como os que me precederam.
O primeiro, o primeiro e único!
***
O mártir me rodeia: minha casa e minha modesta mobília isso é tudo, mas eu tenho mudado.
Eu deitei uma bela jovem na minha cama
E um crescente da lua no meu dedo
Para apaziguar minha angustia.
***
O cerco irá nos intimar, deveremos optar por uma escravidão injusta, ao invés da liberdade plena!
***
As formas de resistência por si só tomam contam da saúde de seu coração
A saúde do brio e de seus tendenciosos males:
O mal da esperança
***
E o que resta do despertar, Eu irradio em meu exterior.
E o que resta da noite, Eu escuto o som de passos dentro de mim.
***
Bem aventurado aquele que compartilha comigo uma visão
A entorpecencia da luz, a luz de uma borboleta, dentro.
Da escuridão desse túnel!
***

Bem aventurado que compartilha meu copo comigo
Na estupidez da noite descamando os dois espaços:
Bem aventurado meu ressurgimento
***
Meus amigos estão sempre preparando uma despedida festiva para mim,
Um aprazível tumulo na sombra de um carvalho
Um marmóreo epitáfio de momentos
E sempre eu antecipo que no funeral:
Quem partiu… quem?
***
A escrita é um filhote abocanhando a solidão
A escrita ferida sem um rastro de sangue
***
Nossos cafezinhos. pássaros, arvores verdes
Na penumbra azul, o sol cambalhota do muro.
Para outros como uma bela jovem
A água nas nuvens tem a forma ilimitada com a qual nos deixou
No céu. E outras coisas das lembranças sublimadas
Revela a manha que é poderosa e esplendida,
E que nos somos convidados dessa eternidade.

Tradução Fabio R Vieira
————————————————————————————————–
Eu venho do outro lado

Eu venho do outro lado e não tenho memórias
Nasci como os mortais, eu tenho uma mãe.
E uma casa com muitas janelas,
Tenho irmãos, amigos.
E uma cela com uma janela fria.

Minha é a onda, quebrada pelas gaivotas,
Tenho minha própria visão,
E uma muda extra de grama.
Minha é a lua no limite distante das palavras,
E a recompense dos pássaros,
E da imortal oliveira.
Eu caminhei por este continente antes das espadas
Tomarem o corpo vivente das sagradas escrituras.

Eu venho do outro lado. Represento o céu exteriorizado em sua mãe
Quando o céu a martiriza
Quando me puno para meu próprio aprendizado.
Para uma nuvem retornando.
Eu aprendi todo o valor das palavras no galanteio do sangue
Então eu pude exceder a regra.
Eu aprendi que todas as palavras se sacrificam
Para formar uma única palavra: pátria…
—————————————————————–

Salmo 9

Oh rosa além do alcance do tempo e dos sentidos
O beijo agasalhado pelos cachecóis de todos os ventos
Surpreende-me com um único sonho
Que minha loucura irá recuar a partir de você
Recuando de você
Na condição de aproximar-se
Eu descobri o tempo
Aproximando de você
No intento de recolher sua forma
Eu descobri meus sentidos
Entre a aproximação e o recolhimento
Existe uma pedra do tamanho do sonho
Que não aproxima
Que não recua
Você é meu país
Uma pedra que não é como eu
Portanto eu não gosto de encarar o céu
Não o faço eu morro rente ao chão
Mas não sou um forasteiro, sempre um forasteiro.
——————————————————————-

Árvore dos salmos

No dia em que minhas palavras forem terra…
Serei um amigo para o perfilhamento do trigo

No dia em que minhas palavras forem ira
Serei amigo das correntes

No dia em que minhas palavras forem pedras
Serei um amigo para represar

No dia em que minhas palavras forem uma rebelião
Serei um amigo para terremotos

No dia em que minhas palavras forrem maças de sabor amargo
Serei um amigo para o otimismo

Mas quando minhas palavras se transformarem em mel…
Moscas cobrirão
Meus lábios!…

Poesia Coreana do Pós Guerra

Yun Tongju’s(1917-45)

OUTRO LAR

a noite retornei para casa,

meus ossos seguiram-me para cama
a sala escura mergulhada com o universo,

O vento soprou como uma voz do paraíso
penetrando sobre meu esqueleto

Aquele ardor calmamente nas trevas
não sei se eu mesmo derramava
meu esqueleto, ou minha bela alma

Um cão fiel
late toda noite em trevas

O cão que late em trevas
deve estar me perseguindo

Vamos, vamos

Como alguém perseguido
vamos para outro belo lar
que meus ossos desconhecem

Kim Ch’unsu (1922- )

Lágrimas

-seus inferiores corpos estão molhados
Um pé de ginseng na noite
-seus inferiores corpos estão molhados
alguém que caminhou através do mar,descalço,
transformou-se num pássaro, eles dizem.
Apenas a sola de seus pés esteve molhada,
eles dizem.
Um homem e uma mulher

-
Shin Kyongnim (1936-)

Depois de fazer as compras

Nós planejamos ser um povo feliz apenas por poder cumprimentarmos uns aos outros.
Descascando melões de camurça em frente a barbearia,
tragando makkolli sentandos no bar,
todos os rostos frequentes como daqueles amigos,
falando sobre a seca tomada do sul, ou de custos co-operacionais,
demarcando o compasso com nossos pés para o violão do vendedor de ervas
Por que nosso compasso é nostálgico em relação à Seul?
Deveriamos ir para algum lugar apostar?

Deveriamos esvaziar nossas carteiras em algum prostíbulo?
Nos reunimos no quintal da escola, mastigamos tiras de lula com shoio.
Sem perder tempo com os dias verão e saímos sob o luar em jipes
carregando um par de galochas ou um único pente de balas extra,
comovendo nosso lar depois de fazer as compras.

-
Kyuwon (1941-)

Esta é minha vida

um homem e uma mulher(eles tem
rostos coreanos)estão
caminhando no deserto

Um homem e uma mulher( o homem
usa um chapéu de vaqueiro
e está olhando fixamente em frente- um homem
sem dúvida; e a mulher em uma pose sensual
olhando fixamente para a câmera-
uma mulher realmente) estão caminhando no deserto

As únicas palavras escritas são estas
vindas de um anúncio do Dongil Renown:

“ESTÁ É MINHA VIDA—vida humilde”

( é humilde!)

Vida humilde, oh , a imensidão
dos simbolos do deserto!
No deserto, não existe uma única pedra aremessada
em direção a testa da vida—

(trad. Fabio R.)

—–
fonte: 20 ST Korean Literature

Ko Un
(Author),

Young-moo Kim

Brother Anthony Of Taize

(Translator),

Kim Su-yóng

Pensando naquele quarto

Sem poder fazer a Revolução,troquei apenas de quarto
Na parede daquele quarto a chamada Lutar Lutar Lutar
estará ainda guradando a escuridão como um delírio

Devo ter deixado todas as minhas canções naquele
quarto,
e assim, agora,esta secura no peito sem razão
a parede daquele quarto, será ela o meu peito,os meus
membros?
A chamada Trabalhar Trabalhar Trabalhar
ainda ecoa no peito como um delírio
Mas já esqueci esta canção e a canção anterior também

Sem poder fazer a Revolução,troquei apenas de quarto
sopu agora uma pena enferrujada mais ossos mais um
olhar insano-
Aprendo a adotar a leveza da decepção com um
patrimônio
Esta leveza, que talvez possa até ser história,
esta leveza,eu a adotei como um patrimônio meu

Sem poder fazer a revolução,troquei apenas de quarto
Mas na minha boca,no lugar de um doce resquício de
determinação,
reavivou-se um amaro gosto amargo

Ainda que eu perca o quarto,os rabiscos,a expectativa,
as canções e até emsmo a leveza

eu agora não sei por quê mas estou contente
e o meu peito, opulento sem razão

trad. Yun Jung Im

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Homenagem ao Poeta

FERREIRA GULLAR José Ribamar Ferreira Gullar (São Luís MA 1930). Poeta, ensaísta e crítico de arte. Em 1949, publica seu primeiro livro de poemas, Um Pouco Acima do Chão, mais tarde excluído de sua bibliografia. Vence o concurso literário do Jornal das Letras, do Rio de Janeiro, com o poema O Galo, em 1950, e no ano seguinte muda-se para a então capital do Brasil. Em 1954, publica A Luta Corporal, e se aproxima dos poetas Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929 - 2003) e Décio Pignatari (1927), participando ativamente da primeira fase do movimento concretista até 1957, quando rompe com o grupo paulista. Dois anos depois, em 1959, publica o Manifesto Neoconcreto no Jornal do Brasil, assinado ainda por vários artistas plásticos - entre eles, Lygia Pape (1927 - 2004), Franz Weissmann (1911 - 2005), Lygia Clark (1920 - 1988), Amilcar de Castro (1920 - 2002) - e pelo poeta Reynaldo Jardim (1926). A partir de 1961, participa do movimento de cultura popular, integrando o Centro Popular de Cultura - CPC da União Nacional dos Estudantes - UNE. Participa da fundação do Grupo Opinião de teatro, em 1964, e é preso pela ditadura militar, em 1968. Após um período na clandestinidade, segue para o exílio em 1971. Em 1975, em Buenos Aires, lê o longo Poema Sujo para um grupo de amigos liderados pelo poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913 - 1980), que consegue a publicação do livro em 1976 e encabeça um movimento de intelectuais a favor de sua volta ao Brasil, o que ocorre no ano seguinte. Em 1980, é publicada pela primeira vez a reunião de sua obra poética, no volume Toda Poesia. fonte:Itaú cultural

José Bonifácio de Andrada e Silva

José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos, 13 de junho de 1763 — Niterói, 6 de abril de 1838) foi um naturalista, estadista, poeta e maçom brasileiro. É conhecido pelo epíteto de "Patriarca da Independência". Pode-se resumir brevemente sua atuação dizendo que foi ministro do Reino e dos Negócios Estrangeiros de janeiro de 1822 a julho de 1823. De início, colocou-se em apoio à regência de D. Pedro de Alcântara. Proclamada a Independência, organizou a ação militar contra os focos de resistência à separação de Portugal, e comandou uma política centralizadora. Durante os debates da Assembléia Constituinte, deu-se o rompimento dele e de seus irmãos Martim Francisco Ribeiro de Andrada e Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva com o imperador. Em 16 de julho de 1823, D. Pedro I demitiu o ministério e José Bonifácio passou à oposição. Após o fechamento da Constituinte, em 11 de novembro de 1823, José Bonifácio foi banido e se exilou na França por seis anos. De volta ao Brasil, e reconciliado com o imperador, assumiu a tutoria de seu filho quando Pedro I abdicou, em 1831. Permaneceu como tutor do futuro imperador até 1833, quando foi demitido pelo governo da Regência.(texto fonte Wikipedia, para acessar todo o texto, vá ao site www.pt.wikipedia.org e busque pelo nome acima)