Poesia & Companhia

SÚPLICA

Publicado por: Poesia & Cia em: Dezembro 24, 2007

mendigo_brasil.jpg 

Estendida à calçada fria
Aquela mão  inerte e esquálida
Projetava-se para o alto
Oferecendo tua miséria num cálice
Em concha de súplica cálida.
Buscando do transeunte
A migalha sobrada
O resto do nada.
Esperando pelo dó
Para anestesiar a dor pelada
Nua na crueza das ruas
Surda para seu apelo
Que tanto causa desprezo
Pela fome não curada
Pela ferida vil
Que a exclusão abriu
Pelo infortúnio
De não se ter nascido do lado certo
De ser o filho da que pariu.
Dor eterna noturna
Onde o sol nunca nasce
A luz pra poucos
O calor pra uns contados
O brilho do olhar morto
Dentro de um corpo violentado.
E de tu, criatura rasteira
Do chão só o que levanta
É a essa mão insistente
De súplica indecente
Causando incomodo a tanta gente
Que fingindo não notar
Aquela mão projetada
Olha para qualquer lado
Onde tua figura patética
Não esteja prostada.
Agruras de uma existência
Sem consolo nem piedade
E aquele olhar mendigo
Acompanhava essa mão pedinte
Como se ela pudesse falar
O que tua boca ressecada
pelas salivas do fel mundano
Para sempre calara.
Recebes as doações
Dadas por pena, medo ou vergonha
De se saber ser humano
Aquela forma subjetiva e tristonha
Prostada ao chão fétido
Onde o cuspe é o tapete
O escarro a lona
E a pedra travesseiro sem fronha.
E tu criatura pedinte
Não mereces mais que uns trocados
Rebaixes ao  chão que pisa a média
Pelo chão que sobrevoa a alta
Ficas aí incrustado à vala
Sentindo o cheiro do esgoto
E o do desgosto
Que emana de tua semi-existência
Enquanto aí  estiveres
Rebaixado a condição de verme
Rastejando piedade
Buscando do sofrer a liberdade
Enquanto essa mão pobre
Se estender como em prece
Aos deuses que passam com pressa
Pra não perceber tua incômoda presença
Pra não olhar no teu olho vazio
Cheio de amargura e sofrimento
Despejado nesse chão cinzento e frio
Enquanto teus trapos
Mal tamparem esse corpo disforme e adulterado
Mal tratarem esses viajantes
Terei vergonha de ser humana
Por saber-me pertencente a uma raça
Que se divide em estirpes, esnobes castas
Que se achando sobrenatural
Esquecem que todos defecam por um mesmo canal
E comem por uma mesma boca
E fazem sexo como escape
E urinam agachados ou em pé
E buscam em Deus a fé
Não deixais cair em tentação
Mas livrai-nos do mal
Mas livrai-nos  dessas lágrimas o sal
Que vertem do seu não-ser
e só então saber-me-ei ser humana
Amém
Amem!

Piá Montenegro

4 Respostas para "SÚPLICA"

Súplica nasceu da minha inquietação diante dessa versão da miséria, aquela que nos afronta nas ruas, e às vezes nos coloca de frente com a covardia, com a omissão, com o sentimento de impotência diante desse cancêr social que é a medingança.

Corajosa poesia Piamontenegro! Mesmo conscientes do problema social que leva a mendicância é difícil expor o real sentimento que emerge no coração ao estarmos diante dessa situação.

Parabéns!

Fantástica descrição “Piá”.

Quase me senti sentado junto ao pedinte!

Pensar sobre o processo de como um ser humano foi promovido ao estado de semi-humano!

“Do pó fostes formado e até que ao pó retornes…”, Neste casos, que mecanismo, nesta sociede faz com que um semelhante (na imagem de um Deus), mantenha-o entre o pó e o lixo nesta improdutiva vida.

Acho, Piá, que o “Homo-Políticus Corruptus” tem nas mãos o sangue de todos os mendigos deste mundo. Não que todos os dirigentes sejam corruptos. Mas a grande maioria, alimenta essa máquina monstruosa, uma sociedade defeituosa.
Incapaz de sentir compaixão pelo desfavorecido.

Vamos nós, os poetas, tratar desses casos com mais delicadeza.

Perfeito o tema, que escolhestes!

Escrever não é um dom, escrever é uma arte, é mostrar como nossos olhos enxergam determinada coisa, pessoa, lugar… É os lhos do artista projetados na imensidão de um papel, de um monitor, de um bloquinho de rascunhos, esboçando emoções, sensações em pequenas e grandes palavras… Gostei muitos dos seus textos, pois você é uma artista, denotando em suas obras a sua alma…

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Homenagem ao Poeta

FERREIRA GULLAR José Ribamar Ferreira Gullar (São Luís MA 1930). Poeta, ensaísta e crítico de arte. Em 1949, publica seu primeiro livro de poemas, Um Pouco Acima do Chão, mais tarde excluído de sua bibliografia. Vence o concurso literário do Jornal das Letras, do Rio de Janeiro, com o poema O Galo, em 1950, e no ano seguinte muda-se para a então capital do Brasil. Em 1954, publica A Luta Corporal, e se aproxima dos poetas Augusto de Campos (1931), Haroldo de Campos (1929 - 2003) e Décio Pignatari (1927), participando ativamente da primeira fase do movimento concretista até 1957, quando rompe com o grupo paulista. Dois anos depois, em 1959, publica o Manifesto Neoconcreto no Jornal do Brasil, assinado ainda por vários artistas plásticos - entre eles, Lygia Pape (1927 - 2004), Franz Weissmann (1911 - 2005), Lygia Clark (1920 - 1988), Amilcar de Castro (1920 - 2002) - e pelo poeta Reynaldo Jardim (1926). A partir de 1961, participa do movimento de cultura popular, integrando o Centro Popular de Cultura - CPC da União Nacional dos Estudantes - UNE. Participa da fundação do Grupo Opinião de teatro, em 1964, e é preso pela ditadura militar, em 1968. Após um período na clandestinidade, segue para o exílio em 1971. Em 1975, em Buenos Aires, lê o longo Poema Sujo para um grupo de amigos liderados pelo poeta e compositor Vinicius de Moraes (1913 - 1980), que consegue a publicação do livro em 1976 e encabeça um movimento de intelectuais a favor de sua volta ao Brasil, o que ocorre no ano seguinte. Em 1980, é publicada pela primeira vez a reunião de sua obra poética, no volume Toda Poesia. fonte:Itaú cultural

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